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A maturidade do adulto, num filme dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.12

A minha caminhada voltou a aproximar-me deste rio. Talvez tenha ouvido de longe o seu sussurro, na voz da Marilyn: I can hear the river call… come to me … Desci, pois, até sentir o barulho suave da água sobre as pedras da margem. Um sorriso ilumina-me de repente: pelos vistos, não me consigo afastar muito deste rio.

  

Hoje pego no filme de Anthony Mann, The Tin Star (1957), para continuar o raciocínio que iniciei aqui. O título pode parecer provocatório: então é preciso ir a um filme dos anos 50 para ver o que é a maturidade de um adulto? Ou dito de outra forma: então já só vemos adultos nos filmes, e ainda por cima, dos anos 50? Mas a verdade é que um adulto é uma personagem cada vez mais rara, uma preciosidade. A maturidade do adulto é, pois, uma capacidade raríssima hoje em dia.

 

O cenário é muito típico dos filmes dos anos 50 no oeste: uma cidade temporária, de madeira, em que cada edifício está bem identificado. A preto e branco, como as próprias personagens, os seus valores e atitudes.  

Um ex-xerife céptico da justiça e dos homens dirige-se a uma cidade para recolher a recompensa da captura de um criminoso. Os habitantes da cidade recebem-no, paradoxalmente, de forma hostil. Todos à excepção de quatro personagens: o jovem xerife, o velho médico, o rapazinho meio índio e a mãe do rapazinho. Cada um por razões diferentes. O jovem xerife condicionado pelo ideal de justiça, o velho médico formado pelo ideal do respeito pela vida humana, o rapazinho pela sua natureza afável e ingénua e a mãe do rapazinho pela sua confiança primordial nas pessoas.

 

Como os melhores filmes do oeste dos anos 50, vemos desenrolar-se à nossa frente as diversas facetas da natureza humana: o medo e a desconfiança do grupo que funciona pela dependência mútua, mas também capaz de reconhecer os melhores de si e de por eles se sentir inspirado; a sensatez, tranquilidade e bondade do velho médico; a capacidade de empatia e confiança, da mulher afastada do grupo por preconceitos raciais; a afabilidade e ingenuidade do rapazinho; o ódio básico e desejo de poder, mais do que de vingança, do assassino; a avidez estúpida e primária do ladrão-assassino, sem capacidade de gratidão ou empatia; a empatia e gratidão do ladrão, irmão do ladrão-assassino.

 

Mas é à volta das facetas das personagens mais complexas deste cenário, o ex-xerife e o jovem xerife, que gostaria de desenvolver o tema da autonomia do adulto.

 

Vemos o idealismo do jovem xerife sobrepor-se ao bom senso e ao próprio instinto de sobrevivência. A namorada insiste com ele para largar aquela estrela de xerife, não quer transformar-se numa viúva, e lembra-lhe o que aconteceu ao xerife anterior. O jovem xerife agarra-se à estrela como a um símbolo de coragem, o ideal de justiça, manter a lei e a ordem. Embora a sua teimosia nos possa surgir como altruista e elevada, mesmo sacrificial, há qualquer coisa de imaturo nesta atitude, como um adolescente que quer provar aos outros a sua bravura e coragem. Ainda não estamos na autonomia do adulto.

 

O ex-xerife já perdeu as ilusões de justiça, da lei e da ordem, sabe tratarem-se de ideias que só raramente funcionam e, mesmo quando funcionam, deixam para trás morte e destruição. Ele é pela vida, nada se sobrepõe a esse valor. Nesse valor fundamental acompanha o velho médico. Só se afasta dele na questão da auto-defesa, na preservação da sua própria vida, não se expondo a riscos desnecessários. Mas no momento decisivo sabe qual é a sua prioridade: coloca a vida do rapazinho acima de qualquer justiça, lei ou ordem.

 

A maturidade do adulto está, pois, nesta personagem que nos surge tão imperfeita: cepticismo, desencanto e desilusões relativamente à natureza humana e ao funcionamento dos grupos que já viu como facilmente se transformam em bandos; preconceito racial que, como reconhece após conversas esclarecedoras com a mãe do rapazinho, reflecte a forma como foi educado; uma distância defensiva relativamente aos afectos, embora a nostalgia dessa harmonia familiar se mantenha.

 

Um adulto é capaz de se distanciar do condicionamento grupal, não está condicionado pelo desejo de aprovação social. Um adulto é capaz de reconhecer os próprios erros, auto-avaliar-se, corrigir a sua atitude. Um adulto é capaz de sentir a dor da perda, não a tenta compensar com o ódio destruidor ou o desejo infantil e primário de vingança. Um adulto está mais próximo da sua vitalidade e, por isso, é capaz de empatia e respeito pelos outros. Um adulto tem as prioridades no lugar certo, defende o valor primordial da vida: a vida do rapazinho é muito mais importante do que o respeito pela integridade física de um assassino de forma a cumprir a lei.

 

 

Apenas uma cena que descobri no youtube:

 

 

 

 

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publicado às 17:05

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57

Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.08.09

 

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias. Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

 

 

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publicado às 22:13

Australia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.09

 

Neste fim-de-semana prolongado deu tempo até para ver cinema em casa. Escolhi o Australia, ou foi este filme que me escolheu. É que as cópias já estavam todas esgotadas (1 de Maio!) mas a jovem simpática do Clube Vídeo adiantou-se: Acabaram de entregar uma cópia (era a hora-limite de entrega dos filmes alugados).

Australia veio comigo, pois. Expectativas? Baixas: imaginava-o um filme de encomenda para os actores brilharem e pouco mais. Uma publicidade ao país dos cangurus, também. Um filme de aventuras com todos os ingredientes habituais: herói bonito e corajoso; heroína bonita e rebelde; paixão q.b.; perigos q.b.; diálogos trabalhados ao milímetro para prender a atenção e o interesse; cenas com muita acção, etc.

 

Surpreendentemente, este filme é despretensioso, luminoso, mágico. Não fazia ideia que iria focar a cultura aborígene, que sempre me fascinou, vá-se lá saber porquê.

Começa por nos introduzir aquele terrível racismo: as crianças aborígenes mestiças eram retiradas aos pais e enfiadas numa Missão para ser domesticadas e formatadas segundo a cultura dominante. Também os bares (e outros lugares públicos) eram interditos a pretos.

Ora, o nosso herói (magnífico Hugh Jackman) foge à regra, convive com os pretos. Esta circunstância obriga-o a uma actividade extra (andar à pancada, o chamado boxe de rua ou uma modalidade do boxe, melhor dito, porque aqui tudo vale, até atirar malas de viagem ao adversário).

Esta cena da pancadaria à frente do bar está mesmo fabulosa, lembrou-me os westerns dos anos 40, 50. A Lady Ashley (fabulosa Nicole Kidman) é que não achou graça nenhuma ao ver a sua roupa interior a voar no meio daqueles homens-espectadores, e tocada pelo lutador que ficou de pé: Bem-vinda à Australia!

 

O nosso herói, Drover (o que leva o gado) também tinha sido responsabilizado por levá-la a casa, numa carripana desengonçada. Essa viagem inclui outra série de cenas bem conseguidas e divertidas, a lembrar desta vez os diálogos cheios de equívocos e de provocações bem-humoradas das comédias românticas dos anos 30 (e como o guarda-roupa é dessa época surge quase a ilusão de viajar no tempo).

Drover explica-lhe que é um homem independente: Ninguém me contrata, ninguém me dá ordens. E dir-lhe-á, filosoficamente: A única coisa que temos é a nossa história.

Mas Lady Ashley não se deixa impressionar, para ela tudo aquilo é uma vida de aventura que também terá fascinado o marido. Uma vida sem responsabilidades.

Os equívocos linguísticos são mesmo hilariantes, Drover fala-lhe de cavalos, Lady Ashley vê-lhes um segundo sentido... A sua opinião do marido também não é lá muito famosa. Imagina-o ali numa vida devassa e só mais tarde irá ver a sua verdadeira motivação, o seu sonho, e dar-lhe sequência.

 

Entretanto, passei por cima das cenas iniciais com o miúdo, Nullah, que se apresenta directamente como não sendo branco, nem preto, não tendo lugar... e o avô, King George, que lhe ensina as histórias, as canções mágicas, tornar-se invisível...

Ficamos a saber que Lord Ashley é morto nesse charco com uma lança aborígene, para despistar.

E ficamos a saber também que o miúdo vive apavorado com receio de ir parar à tal Missão, refugiando-se no tanque de água, de onde espreita Lady Ashley, a mulher mais estranha que já tinha visto.

Para ele, Lady Ashley passará a ser Mrs. Boss. E só depois do funeral de Lord Ashley é que a deixa vê-lo e cantará para ela.

Diz-lhe de forma misteriosa: Vai curar esta terra.

 

A verdadeira aventura começa quando Lady Ashley aceita o desafio, esse sonho quase impossível de levar as melhores cabeças de gado para Darwin.

Mas antes será ela a cantar para Nullah, essa canção de sonhos que encaixa tão bem com o imaginário da cultura aborígene. Tem até um feiticeiro, as chuvas, a Serpente do Arco-Íris...

E o sonho começa a tornar-se possível quando até o bêbado Kipling Flynn (o contabilista) aparece sóbrio.

Já repararam nos nomes de todas as personagens, como são de ficção? Até o cozinheiro chinês, Sing Song, não era o mesmo do cozinheiro da série Bonanza?

 

Bem, voltando ao filme: Outra cena deliciosa, a do desfiladeiro, com o Kipling Flynn a tocar a canção de sonhos ("O Feiticeiro de Oz").

O pobre do Kipling, que irá ficar estendido numa largada da manada e perguntará pelo miúdo, antes de pedir um pouco da bebida de reserva que levara à socapa para circunstâncias especiais.

Cena comovente a do miúdo a enfrentar a manada, quase a escorregar pelo precipício. E depois, já nos braços de Lady Ashley, quando o Drover se aproxima e percebe que, pelo menos naquele momento de aflição, são já uma família no plano dos sentimentos. Drover percebe, pela primeira vez, que está ligado àqueles dois.

Nessa segunda noite bebem em memória do Kipling Flynn e dançam o foxtrot, como explicam, atrapalhados, ao miúdo quando lhes pergunta se é uma dança cerimonial.

Também comoventes (pelo menos para mim) estas lines dos nossos heróis, ao despedir-se nessa noite de descobertas: Acho que daria um óptimo pai... Acho que daria uma óptima mãe...

 

Depois da travessia da Terra do Nunca, guiados pelo King George, a corrida para entregar o gado no barco de metal.

Nullah irá ao cinema ver O Feiticeiro de Oz e os nossos heróis dançarão o foxtrot no Baile.

A chuva cai, para alegria de todos! Drover avisa-a: Na estação seca eu irei levar o gado.

Mas agora está a chover.

 

Doloroso dilema, este de uma mãe do coração aceitar que Nullah terá de fazer a caminhada, partir por uns tempos com o avô. Drover dir-lhe-á que sem isso Nullah não terá história, os sonhos necessários à existência.

Eu compreendi quando disseste que querias ser livre. Mas agora é diferente, nós temos o Nullah.

Mas também Drover viverá o seu dilema doloroso, quando o seu irmão o confronta com a dor de que foge para evitar sofrer:

Estás a fugir. Se não tiveres amor no coração não tens nada. Nem sonho, nem história, nem nada.

Esta cena, do diálogo de irmãos, lembrou-me um outro filme mágico, As Vinhas da Ira, mas apenas na atmosfera, no cenário, pois parecia mesmo um cenário por trás. (Ah, a atmosfera de John Ford...).

 

E não foi apenas esta cena a transportar-me para outras atmosferas, de outros filmes. A cena da invasão de Darwin pelos aviões japoneses e do King George a caminhar tranquilo entre as explosões, lembrou-me O Império do Sol de Spielberg, aquela cena do telhado do Hospital, lembram-se?, quando Jim quase enlouquece ao ver os aviões americanos a rasar os telhados? (J. G. Ballard, o Jim, partiu há dias mas para mim também ficará para sempre nas histórias e nas canções mágicas).

 

Contar histórias é o mais importante. É como mantemos connosco as pessoas que amamos.

 

Australia mostrou-me essencialmente que:

- o cinema é uma linguagem universal, que também vive das suas histórias, das suas personagens, das suas canções mágicas...

- a cultura aborígene sabe que a terra tem um poder, e que as canções mágicas formam caminhos onde não nos perdemos...

- a magia do cinema é da mesma matéria dos sonhos e das canções mágicas.

 

 

 

Obs.: Já que a Feira do Livro de Lisboa está aí, sugeria um livro mágico, O Canto Nómada, de Bruce Chatwin (editora Quetzal).

Apenas um excerto:

Na infância, nunca ouvi a palavra 'Australia' sem que me viessem à cabeça os vapores do inalador de eucalipto e a ideia de um país de cor uniformemente vermelha povoado de carneiros. ...

Tinha na estante um livro sobre o continente australiano e eu olhava, maravilhado, para as fotografias dos coalas e dos martins-caçadores, dos ornitorrincos e dos diabos-do-mato da Tasmânia, do Velho Homem Canguru e do Cão Amarelo Dingo, e da ponte do porto de Sydney.

Mas a fotografia de que eu mais gostava era a de uma família aborígene em viagem. Eram magros e esguios e estavam nus. A sua pele era muito preta, não daqule preto brilhante dos negros, mas um preto baço, como se o sol lhes tivesse sugado qualquer possibilidade de reflexo. O homem tinha uma barba comprida em forquilha e transportava uma lança, ou duas, e um arremessador de lanças. A mulher carregava uma sacola e um bébé pendurado ao peito. Um rapazinho caminhava ao lado dela - identifiquei-me com ele.

Lembro-me dos primeiros cinco anos fabulosos que fiquei sem casa. O meu pai estava na Marinha, no mar, e a minha mãe e eu andávamos de um lado para o outro de comboio a visitar amigos e parentes na Inglaterra em tempo de guerra. ...

Quanto a histórias para adormecer, a minha favorita era o conto da cria do coiote do livro de Ernest Thompson Seton, 'Lives of the Hunted.'

Coiotito era o patinho feio de uma ninhada cuja mãe fora morta pelo 'cowboy' chamado Wolfer Jake. Os seus irmãos e irmãs tinham sido abatidos e a sua vida fora poupada para treinar os mastins de Jake. A imagem dele, amarrado, era a coisa mais triste que jamais vira. No entanto, Coiotito cresceu e tornou-se esperto e, certa manhã, fingiu-se de morto e conseguiu escapar para o mato, onde se dedicou a ensinar a toda uma nova geração de coiotes a arte de evitar os homens.

Não consigo agora explicar as associações que me levaram a relacionar a tentativa de evasão de Coiotito com a 'errância' dos Aborígenes australianos. Nem, no que diz respeito a este assunto, quando ouvi a expressão 'errância' pela primeira vez. Contudo, fiquei com uma imagem desses dóceis 'Blackfellows' que, um dia, trabalham despreocupadamente numa fazenda de gado e, no outro, levantam a tenda e desaparecem no ar sem uma palavra de aviso e sem qualquer razão.

Despiam os fatos de trabalho e partiam durante semanas, meses ou até anos a fio, percorrendo meio continente apenas para encontrar alguém e, depois, regressar como se nada tivesse acontecido. ...

 

 

 

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publicado às 20:29

David Lean e a natureza como metáfora da vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.08

 

Vi um documentário, nos anos 90, creio que na RTP2, em que David Lean nos conta como as opiniões ferozes de alguns críticos o afectaram. Aquele homem ainda belo e de ar aristocrático, deu-nos Brief Encounter, Great Expectations, Ryan's Daughter, A Passage to India (os meus preferidos). E o público aderiu ao Lawrence of Arabia e ao Dr. Zhivago. Estas críticas deixaram marcas em David Lean: uma inibição temporária, de alguns anos, até voltar a realizar. E no entanto, as soluções com que mais implicaram eram, a meu ver, as soluções mais criativas e ousadas! É Cinema-arte! David Lean utiliza frequentemente a natureza como metáfora da vida, dos sentimentos, das emoções. Lembram-se dos ramos ameaçadores daquela árvore centenária nas Grandes Esperanças? Do vento nos ramos das árvores a substituir-se à visão dessa paixão, na Filha de Ryan? Ou das grutas misteriosas na Índia, que tanto perturbaram a rapariga inglesa?

 

Mas também é exímio na montagem, como também foi referido no tal documentário que registei para sempre. A importância da montagem, no cinema, é também uma das lições que os seus filmes nos dão. Neste documentário David Lean exemplifica-nos, através de uma cena, todos os planos em sequência. Uma sequência perfeita.


E voltemos à Índia filmada por David Lean, aos encontros culturais, às sínteses possíveis, outras impossíveis... à modificação vitalícia de uma rapariga inglesa que percebe a tempo que a perturbação é apenas sua e à modificação vitalícia de um homem simples que se deixará levar pelo delírio da revolta.

Fascinante como consegue mostrar por dentro, e de uma forma tão poética, as diversas percepções culturais: da vida, do amor, das pessoas, do mundo. E de como não são apenas as percepções que as distanciam (as duas culturas), mas também as suas prioridades, os seus valores, os seus princípios. Em comum, o desejo profundo de serem respeitadas na sua especificidade. David Lean tenta entrar por aí, procura a razão dessa dificuldade, e a saída possível para esse dilema. E tudo vai dar ao poder e como ele se exerce e como interfere na vida das pessoas. Tudo vai dar aí. Pudesse esta rapariga falar abertamente do que a perturba, a alguém calmo e sensato, e tudo se teria resolvido naturalmente: é assim que os equívocos melhor se esclarecem. Há uma velha senhora inglesa que pressente tudo isto e que gostaria de ter evitado tudo o que se seguiria. Mas tal não será possível. A comunidade inglesa é logo envolvida e todos sabemos como estes assuntos são tratados, com a abordagem errada (e à dimensão errada).


Mas voltemos atrás: à perturbação da rapariga inglesa. Como o contacto com uma cultura exuberante e sensual a modificou para sempre. Ou como simplesmente libertou uma parte de si própria que tinha reprimido, ou que até talvez desconhecesse... Aqui David Lean recorre de novo à natureza como metáfora: os monumentos que desvendam toda a sensualidade possível, todas as possibilidades de expressão da vida quando se liberta...
Nesse piquenique perto das grutas, o homem simples sente-se todo orgulhoso no seu papel de guia. Mal pode sequer adivinhar que em breve será humilhado e acusado injustamente. De novo David Lean a recorrer à natureza: grutas labirínticas, onde os ecos, aumentados, entram pelo corpo dentro, até invadirem todas as moléculas e deixarem a rapariga a tremer. É de medo do seu próprio desejo que a rapariga treme. É de medo de si própria, no fundo, que grita desvairada.


O recurso à natureza é a marca registada de David Lean. Ele é o mestre. Além da elegância da fotografia e da montagem. E do enorme respeito pelo espectador que nunca trata como voyeur. David Lean é um dos melhores de sempre. Um gentleman do cinema. De alma aristocrata.

 

 

 

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publicado às 15:45

Quando uma natureza bravia e uma natureza pacífica se encontram

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.11.08

 

A força da natureza. A lógica do progresso. Uma ilha incómoda. E a descoberta do desejo, também ele indomável. Um encontro que se revela criativo. Wild River.


Voltei a descobrir este filme, desta vez na RTP Memória. Desde que o vi pela primeira vez que me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomável da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diálogos contidos, os gestos expressivos... Há qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poético neste filme! A terra e a alma estão ligadas, na avó da jovem mulher. A própria mulher é um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirá ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistência à abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) é mais aparente do que real. E às vezes só se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, são mais chuvadas, está-se em Outubro).

Bem, nesta altura já deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar é, também ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem também, também assim azul...


Voltando ao Wild River: A avó de uma jovem mulher, viúva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. Permanecerá ali, teimosamente, até a obrigarem a sair. Vemos, no seu último olhar desesperado para a árvore que cai, que alguma coisa dentro de si também começou a cair... E mesmo que a nova casa também tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... não durará muito, adormecerá na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardará ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que só desta vez reparei.


Há momentos verdadeiramente mágicos! Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tão intensos, os filmes desta época! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tão minimalista. Elia Kazan é exímio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitação é interior, está quase a explodir, já a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo está diferente. Eles mudaram. E será assim a partir daí. Até ele descobrir que não é assim tão auto-suficiente... que (também ele) precisa dela.
Não é fácil amar-te, dir-lhe-á ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... Está à sua frente, tão franca e vulnerável, tão altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amá-lo, mesmo podendo perdê-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.


Sim, há qualquer coisa de bravio neste filme. E de poético também. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacífico não irá poder resistir. Não apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitará o seu desafio e da forma mais inesperada possível. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso não é importante. Ali estão, no meio da lama onde tinham caído, lado a lado. E então o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que ele provavelmente se irá arrepender e que certamente ela se arrependerá... Mais inesperado do que isto é impossível.


Sim, o homem ganha uma família instantânea, como já lhe tinha dito, de forma sarcástica, um dos manda-chuvas do sítio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivíduos exemplificam, na perfeição, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. Também é aqui visível o racismo, em que não há igualdade de tratamento nem de salários. Esse é, aliás, um dos pontos de fricção cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui também podemos medir a sua coragem na medida inversa à sua habilidade e força física. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita à violência física, não abdicando dos seus princípios.

 

Em Wild River a natureza está sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso também está a acontecer dentro de nós, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma árvore a tombar…
O ritmo também acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que só se sente a respiração das personagens, diríamos que numa linguagem e num tempo mais próprios do teatro (e isso é muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick é a viúva um pouco bravia. Montgomery Clift é o homem pacífico. Jo van Fleet é a mulher da ilha, de um território, raiz de uma árvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimónia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilíbrio instável. Em Wild River até a barragem parece ligar-se de forma poética às montanhas que a envolvem. Mas será possível dominar um wild river?

 

 

 

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publicado às 13:48

Quando o Cinema antecipa a História

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.11.08

 

Guess Who's Coming to Dinner está carregado de significado histórico. Foi o último filme com o par mágico Katharine Hepburn-Spencer Tracy. E antecipou, de forma curiosa, a eleição de um Presidente-síntese racial e síntese cultural.

Só neste fim-de-semana, ao revê-lo no canal Hollywood, reparei que, no próprio filme, no diálogo entre o pai da rapariga (Spencer Tracy) e o médico com quem ela quer casar (Sidney Poitier) esse acontecimento é antecipado no plano do possível e de um optimismo (da rapariga):

Joanna diz que os nossos filhos podem até vir a ser Presidentes...

Um pouco adiante o pai da rapariga diz: Talvez daqui a 50, 100 anos...

 

Sim, o filme antecipa já novos tempos para a América...

Quase consigo imaginar o escândalo que o tema terá despertado na altura em muitas mentes fechadas. E não apenas na comunidade branca, digamos assim. Também o filme refere isso: a resistência àquele casamento é uma resistência das  duas comunidades (e inclui Tillie, a empregada que está naquela família há mais de 20 anos e quer proteger a sua menina).

Estava-se em 1967. E o mais fascinante dessa época é a incrível frescura de um certo Cinema, e de uma parte dos intelectuais, que contrasta com uma outra parte muito agarrada a tradições e preconceitos.

 

Mas voltemos ao filme: a resistência das duas comunidades. Como em Tillie, que assimilou, sem questionar, que uma coisa são os direitos civis. Outra, muito diferente, o que se passa aqui...

Essa resistência não é igual no lado feminino e no lado masculino. No lado feminino, esta resistência é só no primeiro impacto (fabulosa Katharine Hepburn!), pois são mais rápidas e flexíveis na aceitação da situação. Ou porque vêem e sentem o afecto genuíno daqueles dois, os fortes laços que os unem.

A resistência masculina permanece até ao fim (do filme, entenda-se).

Magnífico diálogo entre o pai da rapariga e a mãe do médico em que ela, apesar de perceber a sua motivação (dele) proteger aqueles dois, não via que iriam sofrer muito mais se não pudessem ficar juntos. E diz-lhe com lágrimas na voz: os homens, quando envelhecem, esquecem-se do amor que sentiram quando jovens...

É esta simples frase que mais impacto terá no pai da rapariga e que lhe dará o mote para aquele monólogo final, que é de cortar a respiração e de nos deixar arrepiados, porque é sobre aqueles dois mas também com aqueles outros dois: Spencer Tracy e Katharine Hepburn. É nesse monólogo que diz lembrar-se perfeitamente desse amor enquanto jovem, desse amor ainda vivo. E esta frase fica no ar: Se vocês sentirem um pelo outro metade do que nós sentimos, valerá a pena.

 

Ainda não lhes dediquei um texto neste rio sem regresso. Como foi isso possível, se têm sido uma das minhas maiores referências?

 

Mas hoje é da antecipação da História, e de Sidney Poitier que vou falar. Porque vi, há uns meses um documentário no canal ARTE e o papel simbólico de Sidney Poitier nesta mudança anunciada. Um papel de continuidade histórica também.

Sidney Poitier sabe que as anteriores gerações de actores afro-americanos lhe abriram um caminho, que ele continua. É como se lhe preparassem a possibilidade de dar o passo seguinte: de personagens com profissões subservientes (amas, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, recepcionistas de hotel, moços de recados, etc.) para personagens com profissões com formação académica e socialmente mais influentes.

Interessante observar como também em Guess Who's Coming to Dinner vemos já uma diferença de postura e de atitude nas duas gerações. Uma, a do pai do médico, que teve ainda de lutar, numa sociedade que lhe lembra todos os dias a sua condição de "negro", para investir numa vida melhor para o filho. E outra, a do filho, que interiormente reformulou essa imagem social, para se afirmar noutra dimensão: a sua condição de homem, acima de tudo.

Também esta ideia de continuidade de um percurso cultural, de uma evolução de mentalidades está no filme:

No diálogo do médico com o seu pai, este, para o dissuadir do casamento, tenta o argumento da cobrança afectiva e lembra-lhe todos os anos de sacrifícios e privações para que ele pudesse ter um futuro melhor. Mas sem resultado. O filho responde-lhe à letra, que o que o pai fez por ele é o que um pai faz pelo filho, é o mesmo que ele próprio fará pelo seu filho. E por fim resume, no olhar e numa frase, tudo o que sente naquele momento: Eu amo-o, é o meu pai. E por isso só espera que o pai aceite a sua felicidade.

 

Sidney Poitier é um homem inteligente e com uma forma insólita e desarmante de abordar a questão racial. Em parte  porque não nasceu na realidade americana. Como ele próprio referiu no documentário: Na América os afro-americanos são uma minoria. Mas nas Caraíbas, somos a maioria da população.

Por isso, quando o questionaram sobre o seu fraco papel no activismo afro-americano, respondeu: Continuam a tentar reduzir-me a essa dimensão, a minha negritude. Mas essa é apenas uma das minhas facetas. Além de tudo o mais, sou um homem, sou um cidadão americano, tenho uma determinada personalidade, uma intervenção e uma história.

 

 

 

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publicado às 12:16

Orson Welles, o génio excessivo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.07.08

 

Coloquei Orson Welles no plano do génio, porque é assim que o vejo. Embora uma genialidade que veio acompanhada de um narcisismo exacerbado e de um perfeccionismo obsessivo. Avassaladores, os seus filmes The Magnificent Ambersons, Citizen Kane...

Não é só o seu magnífico domínio da linguagem cinematográfica, em que é único. É a forma heróica, dramática, que imprimiu às histórias familiares, à construção de impérios, à vida de pequenas comunidades. Com Orson Welles, a vida deixa a sua dimensão simples e insignificante para se elevar ao plano dos grandes dramas históricos. Talvez Orson Welles tenha vivido sempre nesse plano shakespeariano e isso vê-se na forma como cria.

Dele escolhi Touch of Evil porque aqui Orson Welles dá um certo espaço a uma liberdade que lembra a vida real e não um palco. Aqui os planos são ainda mais ousados, mais livres, mais soltos. Em arte, mil vezes a liberdade ainda que desajeitada, do que a perfeição que é sempre opressiva.

 

Em Touch of Evil Orson Welles pega no lado mais sombrio da alma humana: corrupção, racismo, violência, abuso de poder, chantagem, manipulação. Aqui não há lugar para ilusões ou fantasias. Tudo é revelado, desde a bestialidade amoral do polícia corrupto até à estupidez rasteira dos jovens delinquentes.

Touch of Evil é também um retrato cruel de uma América invisível à vista desarmada, obscura e violenta. Mas também da espécie humana, quando vista no plano do instinto primário e visceral. E para o revelar, só mesmo uma linguagem excessiva e brutal.

Mas é Orson Welles. E Orson Welles é sempre excessivo.

 

 

 

E também aqui, n' O homem que sabia demasiadoo sinistro Hank Quinlan.

 

 

 

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publicado às 18:30

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

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publicado às 11:25


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